Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Eleições do PSD e a Política na Web

O P2 publicou ontem uma interessante peça sobre a presença dos candidatos do PSD na Internet. Utilizando como referência as directas americanas, chega-se facilmente à conclusão que os candidatos do PSD preparam-se mal nestes domínios. Mas o artigo vale sobretudo pela reflexão em torno da importância crescente da Web 2.0 na luta política.

O artigo constata, por exemplo, que a generalidade das candidaturas à liderança do PSD preparou-se mal em domínios como os rankings Google ou a presença na Wikipedia. As presenças no You Tube, no Hi5, no My Space, no Facebook ou no LinkedIn são quase inexistentes. A falta de redes de links na blogosfera que lhes permitam subir nas pesquisas dos motores de busca é também uma das conclusões apontadas.

Embora constate que a Web social ou Web 2.0 não assumem ainda uma importância decisiva no contexto português, o artigo estranha que as presentes directas ignorem os ecos vindos das directas americanas ou das eleições espanholas.

A peça é da autoria de Paulo Querido, jornalista que há muito se dedica às temáticas da Sociedade da Informação e aos impactos das novas tecnologias. Paulo Querido, que é responsável da plataforma Tubarão Esquilo e autor do blogue Mas Certamente que Sim, disponibilizou recentemente uma ferramenta que permite acompanhar a par e passo o que se escreve online sobre as directas do PSD. Pode ser visitada aqui e demonstra bem que muita massa crítica sobre política pode já ser na encontrada na web portuguesa.

Tristes Conveniências

Com a catástrofe verificada em Sichuan, aquele que começava a ser o principal tópico da agenda internacional sobre a China perdeu poder. O Governo Chinês sublinhou agora que as conversações em torno da autonomia do Tibete não são prioritárias.

Tendo em conta a calamidade verificada na China, o Governo de Pequim aproveita agora para passar para segundo plano a temática da autonomia do Tibete. Outra reacção é que seria de estranhar por parte de Pequim. E será mais do que natural que a catástrofe de Sichuan ocupe a agenda até aos Jogos Olímpicos.

A comunidade internacional terá agora uma dificuldade ultra-acrescida em fazer vingar a referida temática. E mesmo a vaga activista que se verificou em todo o mundo em torno da causa tibetana e dos direitos humanos na China ganhou obstáculos de peso para manter-se mobilizada. Tristes conveniências…

Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

Sobre os 10 000 € que Sócrates terá de Pagar

O actual primeiro ministro terá de pagar uma forte indemnização a um jornalista do Público devido a atentados ao bom-nome. O caso remonta ao mandato de Sócrates como Ministro do Ambiente. Eis mais um exemplo de como o passado é algo sempre presente quando se trata de alguém que ocupa elevadas funções políticas.

Em causa parecem estar algumas acusações proferidas pelo então Ministro do Ambiente sobre o jornalista. Na sequência de algumas peças sobre a atribuição de um elevado subsidio à DECO, Sócrates acusou José António Cerejo de ser “leviano e incompetente”, de padecer de “delírio” e de servir “propósitos estranhos à actividade de jornalista”. O artigo que desencadeou o processo pode ser consultado aqui.

Depois da questão dos cigarros na semana passada, eis mais uma pedrada na imagem de Sócrates… E mais um motivo para os socialistas considerarem o Público persona non grata.
PS: Como seria de esperar, Sócrates vai recorrer da sentença.

Terça-feira, 20 de Maio de 2008

PSD - Voando sobre um Ninho de Cucos

A honestidade intelectual é uma característica invejável em política. Mas se calhar existem alguns limites. Pequenos, mas existem. Alguém devia informar o candidato Patinha Antão sobre esses limites.

No debate entre candidatos na distrital do Porto, Patinha Antão afirmou, “com toda a sinceridade”, que não se preparou para ser líder do partido. “O Pedro sim”, acrescentou Patinha Antão, que aproveitou para sublinhar que o seu adversário é “um líder do século XXI”. O candidato a líder do PSD salientou ainda que “não importa que ganhe o candidato A, B ou C. Não importa a cor do gato, o que importa é que cace o rato”.

Se Patinha Antão não se preparou para ser líder do partido, se acha que Passos Coelho é o líder do século XXI, e se considera ainda que não importa quem ganhará, alguém faz o favor de perguntar a Patinha Antão porque é que ele é candidato?

Passos Coelho soma e segue

Para quem avançou para a campanha como apenas uma jovem promessa, Pedro Passos Coelho está, aos poucos, a somar pontos importantes. A imagem que tem conseguido passar e alguns apoios que tem recebido fazem com que se esteja a transformar no principal adversário de Ferreira Leite.

Pedro Passos Coelho não é novo na política, antes pelo contrário. Mas a imagem que tem conseguido passar e a aura liberal que tem cultivado, são mais-valias indiscutíveis na luta pela liderança. Por outro lado, e de forma quase silenciosa, o candidato da “terceira via” tem conseguido apoios inesperados. O líder da distrital de Lisboa apoia-o e tem também a preferência dos militantes da distrital do Porto.

É certo que falta a Passos Coelho o apoio de alguns barões mediáticos que consigam de facto influenciar as bases sociais-democratas. De qualquer modo, não está nada mau para uma candidatura que, numa fase inicial, foi encarada como querendo apenas posicionar-se para o futuro. Ficar-se-á apenas por uma boa prestação nestas directas? A ver vamos…

Segunda-feira, 19 de Maio de 2008

O Estudo que vem Tarde e que Teima em não Surgir

Manuel Pinho manifestou-se preocupado com a subida dos preços dos combustíveis. Como seria de esperar, fugiu da questão dos benefícios que o referido aumento tem originado para o Estado em termos de impostos. Refugiou-se no estudo que foi pedido à Autoridade da Concorrência e que teima em não surgir.

Desde que se decretou a liberalização dos preços dos combustíveis, estes não pararam de subir. Rapidamente se desvaneceram as promessas de que a liberalização baixaria os preços. E importa sublinhar que tal sucedeu numa altura em que o preço do barril se apresentava relativamente estável.

Mas mais do que os efeitos objectivos da subida dos preços, o mais comum dos mortais verificou que estes subiam de forma coordenada nas diversas gasolineiras. Foi preciso chegar-se a uma situação em que os preços sobem mais do que uma vez por semana para que um estudo tenha sido encomendado à Autoridade da Concorrência. Os comuns dos mortais aguardam agora pacientemente as conclusões dos especialistas sobre tão complexa matéria.

Teremos o PS no Governo até 2013?

A maioria absoluta obtida pelo PS em 2005 e a suposta tradição de rotativismo após dois mandatos, tem levado muitos a acreditarem que o actual cenário se manterá até 2013. Mas a não-obtenção de uma maioria absoluta pelo PS em 2009 poderá mudar muita coisa. Inclusive a sua manutenção no Governo até 2013.

O Diário de Notícias publica hoje um artigo sobre a subida do PCP e do Bloco nas sondagens. Tal acontece num momento em que o PSD se encontra de rastos e o Governo Socialista tem deixado fugir muito do seu eleitorado para a esquerda. Veremos como evoluirá o cenário até Outubro de 2009 mas, para já, uma nova maioria absoluta do PS não é um dado adquirido, antes pelo contrário.

Caso Sócrates não consiga a maioria absoluta, como governará até 2013? Ficará refém de alianças pontuais com a oposição (tal como aconteceu com Guterres)? Tendo em conta o perfil do actual primeiro-ministro, o referido cenário poderá provocar um desgaste tão acentuado que colocará em causa a manutenção do governo minoritário até 2013.

Trata-se de um cenário de futurologia, bem sei… Mas esta “sessão” de futurologia serve precisamente para demonstrar que, em termos de dinâmicas políticas, não existem dados adquiridos. Sócrates sabe disso, daí o esforço que tem vindo a fazer no sentido de precaver o que 2009 lhe reservará.

Domingo, 18 de Maio de 2008

Ferreira Leite evita o debate a todo o custo

Tem sido uma constante ao longo da campanha. Manuela Ferreira Leite evita repetidamente o debate directo com os seus adversários. Até quando o conseguirá fazer?

A iniciativa agora organizada no Porto não é excepção. A ex-ministra será a única a não participar no debate de amanhã promovido pela distrital do Porto. Já durante esta semana, Ferreira Leite foi a única a não responder a um conjunto de cinco questões colocadas aos candidatos pela agência Lusa.

A preservação da imagem parece ser uma estratégia seguida à risca por Ferreira Leite. Tenta, deste modo, gerir a vantagem que lhe tem sido atribuída pelas sondagens. Evita, por outro lado, o debate directo com os restantes candidatos, domínio que não é claramente o seu forte. Até agora, a estratégia tem-lhe permitido manter-se como favorita mas, seguramente, vai-lhe retirando aos poucos a larga vantagem com que partiu para esta corrida.

Só eu sei…

Ganhar uma taça sabe sempre bem. Ganhar contra o FCP sabe melhor. Ganhar contra o FCP, campeão nacional, por 2-0 é uma delícia! Grande Sporting!

Apesar de atribulada, a época consegue terminar bem. A equipa merece. Uma nota especial para Paulo Bento pela forma como tem conseguido merecer a confiança que nele tem sido depositada. Eis um exemplo de como uma equipa também se faz mantendo um treinador. Força Sporting!

Declarações pouco felizes…

A campanha no PSD oferece-nos episódios deveras interessantes. Ficámos a saber que a mandatária para a juventude de Pedro Passos Coelho não confirma em quem votará em 2009. (via Zero de Conduta)

Na sua apresentação, a mandatária surpreendeu pelo teor intrigante das suas respostas. Quando questionada se votaria em Passos Coelho contra o actual primeiro-ministro, respondeu: "O meu compromisso com esta candidatura é até ao dia 31 de Maio". "Não faço ideia o que acontecerá depois disso", acrescentou.

Acrescentou ainda que, antes de aceitar ser mandatária, fez questão de "conhecer o candidato pessoalmente" e conversar longamente com ele. Sobre a sua mandatária, Pedro Passos Coelho afirmou tratar-se de “uma escolha muito simbólica"…

Sábado, 17 de Maio de 2008

Ana Jorge: A Ministra Vermelha?

Com o plano apresentado para a oftalmologia, Ana Jorge espera acabar com as vergonhosas listas de esperas. Mas algo salta à vista nesta sua política: o recurso exclusivo aos meios do SNS. Sem complexos, a nova ministra volta a mostrar pouca empatia com o sector privado na saúde.

Estas manifestações por parte da ministra têm-se multiplicado, originando uma importante viragem na política até então seguida por Correia de Campos. Pouco depois de ser nomeada, o Governo anunciou a não renovação da gestão clínica privada do Hospital de Cascais, ao mesmo tempo que surpreendia ao excluír o recurso ao referido modelo numa série de novos hospitais previstos.

Mais recentemente, a critica explicita a Teixeira dos Santos, devido ao acordo com o Hospital da Luz no âmbito da ADSE, deixou tudo e todos boquiabertos. Certamente devido a esta viragem à esquerda, o tumulto que se vivia em redor da Saúde parece ter acalmado com a chegada de Ana Jorge. Para já, Sócrates parece ter acertado no antídoto aplicado.

Tragédias que nos deixam sem palavras

Nem sei bem o que há a dizer sobre os terríveis números de vítimas do ciclone na Birmânia e do terramoto em Sichuan. De qualquer modo, e apesar de pouco útil, é impossível não deixar aqui uma manifestação de sincero lamento perante a dimensão destas calamidades.

As palavras acima até podem soar estranhas. Sobretudo a sua inscrição neste blogue, pouco dado a sentimentalismos e por vezes envolto em tricas menores ou politiquices de pormenor. Contudo, aqui fica uma manifestação de profunda tristeza pela desgraça que está a assolar os dois países.

É impressionante o número de vítimas. Número esse que vale como tal: um mero número. Algo impossível de imaginar. Ainda por cima, algo que ocorre do outro lado do mundo. Duas catástrofes cuja dimensão começa a ombrear com o tsunami que varreu o sudeste asiático há alguns anos atrás. Verdadeiras tragédias.

Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

“Homofóbicos, assumam-se!” – O Artigo de Fernanda Câncio

A propósito do posicionamento dos candidatos do PSD, Fernanda Câncio escreve hoje sobre a importância da palavra “casamento” e a possibilidade da sua aplicação à união de duas pessoas do mesmo sexo. Convida os mais renitentes a posicionarem-se claramente sobre esta questão.

A jornalista do DN relembra o artigo 13º da Constituição que proíbe a discriminação em função da orientação sexual, sublinhando o incómodo que grande parte da comunidade política possui no reconhecimento de direitos à população homossexual. Neste contexto, convida a “maioria silenciosa” a posicionar-se claramente sobre esta questão, propondo para tal uma revisão constitucional que consagre o seguinte artigo:

“É permitida a discriminação em função da orientação sexual. É permitido à maioria decidir por quem se devem apaixonar as pessoas, e como têm o direito de consagrar as suas paixões; é permitido à maioria banir os homossexuais para a clandestinidade.”

Perante esta brilhante linha de argumentação, só posso aplaudir. Excelente artigo de Fernanda Câncio.

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Passos Coelho e o Casamento Homossexual

Em resposta a um inquérito da Lusa, Pedro Passos Coelho declarou-se favorável à possibilidade de um contrato civil de duas pessoas do mesmo sexo. Esteve bem ao assumir esta posição, reforçando assim a aura liberal em torno da sua candidatura.

Em resposta à Lusa, considerou que “Ninguém deve ser discriminado ou limitado nos seus direitos em função da sua opção sexual.” Sobre a denominação de contrato civil em vez de casamento, respondeu que “Não é importante a designação que damos ao instituto desde que possamos garantir esses direitos”. Humm…

Se a denominação não fosse importante, podíamos desde já abolir a palavra casamento e passar a chamar contratos civis inclusive às uniões heterossexuais, correcto? Ah pois é… Passos Coelho tenta ser liberal, mas foi-lhe conveniente deixar um toque de conservadorismo nas suas afirmações. Mesmo que tal tenha implicado uma profunda contradição…

Os Cigarros de Sócrates: O Pedido de Desculpas

A polémica instalou-se e o número de comentários e de blogues referenciados nas notícias do Público demonstram isso mesmo. Sócrates reagiu à polémica com um pedido de desculpas. Esteve bem?

O primeiro-ministro esteve bem ao reconhecer que errou, pedindo rapidamente desculpa por tal erro. Esteve bem ao sublinhar que o governo deve dar o exemplo. Esteve bem igualmente ao assumir que ia deixar de fumar.

Sócrates não esteve bem ao reiterar um desconhecimento da lei. Em última análise, não a conhecia ou não a quis conhecer. Estaria melhor caso se disponibilizasse desde logo a pagar a multa por tal infracção, transformando assim um fait diver num bom exemplo.

Por último, e como era previsível, os meandros da visita à Venezuela perderam relevo. Foi melhor assim... Os acordos com Chávez em torno do petróleo não ficam bem em nenhuma fotografia.

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Bastonário contra a Violência Doméstica como Crime Público

Marinho Pinto voltou a surpreender ao afirmar na Assembleia da República que a violência doméstica deveria deixar de ser um crime público. Segundo o bastonário da Ordem dos Advogados, o modelo de crime público inviabiliza a desistência do processo caso a vítima assim o pretenda.

Marinho Pinto tem-se caracterizado por este tipo de intervenções que deixam tudo e todos perplexos. Questiona-se a opinião pública: “Caso a vítima possa desistir do processo, não existirão mil e uma maneiras de a coagir para que assim o faça?” Estará a escapar-nos alguma coisa? A APAV já condenou as afirmações do bastonário.

É bom que Marinho Pinto justifique bem as suas afirmações. Caso contrário, esta ficará como mais uma das suas intervenções despropositadas que têm caracterizado este seu ainda curto mandato. Sr. Bastonário, faça o favor de se explicar.

Os Cigarros de Sócrates: Algumas Estatísticas

Apesar de algumas dúvidas terem surgido, Jorge Miranda e Vital Moreira já confirmaram não existirem excepções à proibição de fumar em transportes aéreos. De qualquer modo, a polémica dos cigarros de Sócrates está ao rubro. Vejamos apenas alguns números:

Menos de 24h depois do Público ter noticiado a questão, mais de 70 blogs são referenciados pela edição online do jornal a comentar a polémica. Importa sublinhar que estes são apenas os referenciados. Por outro lado, a referida notícia recebeu já 500 comentários dos leitores do jornal.

Não tenho ideia de ter assistido alguma vez a tantas reacções no referido jornal. De qualquer modo, comprova-se que a polémica poderá durar, sobretudo por ser algo simples e evidente, estilo soft politics. Com o devido respeito, é algo que o Sr. Carlos do café, a Dona Emília da mercearia ou o Sr. José do táxi não terão qualquer dificuldade em comentar, em espalhar a notícia, em condenar. Erro crasso o de Sócrates…

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Sócrates fumou no Avião: um fait diver que poderá sair caro

O Público noticiou que Sócrates, Manuel Pinho e a comitiva governamental que seguia para a Venezuela fumaram a bordo do avião fretado à TAP. O que, à partida, pode parecer um fait diver, deixará certamente marcas na imagem de implacabilidade de Sócrates.

Como é natural, esta “pequena” transgressão à lei poderia não ser grave no currículo do comum dos mortais. De qualquer modo, tendo em conta a imagem distante e pouco humana que Sócrates tenta passar, tornar-se-á certamente numa transgressão que muita tinta fará correr nos próximos dias.

Como é possível que Sócrates tenha cometido um erro tão crasso? No artigo do Público vale a pena atentar ao desconforto e embaraço manifestado pela tripulação do avião. É proibido fumar, mas… Quer dizer, no fundo… É o primeiro-ministro e sua comitiva. O que é que podíamos fazer?

Bob Geldof e as suas Afirmações sobre Angola: a Polémica Continua

O Director do Jornal de Angola dedicou um inflamado editorial à polémica. Acusa Lisboa de ser o “centro das conspirações contra Angola” e acusou também a comunicação social portuguesa (nomeadamente o director do Expresso) de difundir mentiras sobre a realidade angolana e de injuriar e difamar os governantes do país.

As trocas de acusações entre países resvalam rapidamente para nacionalismos infundados. Embora tal não se aplique ao director do Jornal de Angola (que é propriedade do Estado), é compreensível que os angolanos não apreciem que o seu Governo seja mal-tratado. O mesmo raciocínio poderia aliás aplicar-se ao contrário: os portugueses criticam naturalmente o seu governo, mas provocar-lhes-ia comichão se alguém externo afirmasse que Portugal é governado por incompetentes ou corruptos.

Posto isto, não vale a pena comentar as acusações do director do Jornal de Angola. Comentá-las implicaria desviar o debate das questões que originaram a polémica: a corrupção e o desrespeito pelos direitos humanos. Dada a resposta previsível de alguns sectores angolanos, seria muito mais profícuo que os directores e colunistas da nossa imprensa se interrogassem também sobre o que Portugal tem feito (e o que não tem feito!) para que o cenário angolano mude. Neste tipo de questões, não chega atirar pedras ou apenas constatar o que é evidente.

Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Movimento Mérito e Sociedade e a Proliferação de Novos Partidos

No final de Abril foi formado um novo partido: MMS - Movimento Mérito em Sociedade. Em Março passado, Rui Marques também anunciou a recolha de assinaturas para o MEP – Movimento Esperança Portugal. Será a moda do “eu quero um partido só para mim”?

Ambos os movimentos justificam a sua constituição como partido político dado o desgaste do actual sistema partidário português. Distanciam-se de enquadramentos esquerda vs direita, apresentando um perfil ideológico tipicamente situado ao centro. Será positiva a proliferação deste tipo de partidos?

Como é natural, é positivo que surja gente com vontade de participar, de mudar, de querer fazer melhor. E a constituição como partido pode ser um dos caminhos a seguir. No entanto, destacam-se duas questões menos salutares do caminho seguido pelo MMS e pelo MEP:

1) O distanciamento ou recusa do paradigma esquerda/direita não é positivo à partida. Apesar de tudo, trata-se do principal referencial global de identidade política até à actualidade. E é também responsável por alguma coerência no confronto político. A negação deste referencial poderá implicar um posicionamento político à deriva, com falta de identidade, excessivamente centrado no consensual. Negar as dicotomias equivale a negar a política.

2) A proliferação destes novos movimentos poderá contribuir, em caso de sucesso dos mesmos, para a fragmentação/balcanização do sistema de partidos. Tal poderá ser crítico. Veja-se, a título de exemplo, o caso italiano.

O aparecimento destes novos partidos indicia a tão badalada necessidade de renovação dos principais partidos políticos portugueses. De qualquer modo, em nome da estabilidade do sistema de partidos, era sim importante que novos quadros ingressassem e renovassem por dentro os actuais partidos. A multiplicação de partidos pouco consistentes ideologicamente poderá não ser a melhor solução.

Domingo, 11 de Maio de 2008

O Enterro d’O Independente

Com vista a saldar uma divida de cerca de 4 milhões de euros, os bens d’O Independente foram sexta-feira a leilão. Os baixíssimos valores obtidos ditaram um final nada dignificante.

O título do jornal (com um valor base de licitação de 25 mil euros), obteve uma oferta máxima de 1100 euros. Como escreveu Vasco Pulido Valente: “O Portugal de 2008 enterrou O Independente como quem enterra um primo de má vida e pior fama, que se deve esquecer.”

Dificilmente se poderia ficar indiferente à linha editorial d’O Independente. As suas manchetes, mais ou menos objectivas, faziam tremer os governos. Ocupava um lugar importante de fiscalização do poder político. Será que o referido lugar está a ser devidamente ocupado na actual comunicação social? Tenho algumas dúvidas.

Fenómeno Ronaldo

Com o campeonato inglês hoje conquistado, Cristiano Ronaldo tem agora o caminho ainda mais livre para se sagrar o melhor do mundo. Será mais do que merecido.

Não tenho por hábito escrever sobre futebol, mas é difícil passar ao lado do fenómeno Ronaldo. E não, não vou destacar as suas capacidades, a sua técnica, a sua vontade impressionante de marcar e fazer a diferença. Enumerar as suas qualidades revela-se supérfluo perante a dimensão do fenómeno.

Destaco sim a forte capacidade de lidar com as expectativas e, de forma impressionante, conseguir geri-las e ultrapassá-las com grande facilidade. Ronaldo é, neste momento, um fenómeno. Não sou possuidor de um saber enciclopédico sobre futebol, mas arriscaria dizer que há muito não se via algo assim.

Sarkozi: a Queda do Petit Terrible?

Um ano depois da sua eleição, Sarkozi consegue ser o presidente francês da V República com menor popularidade. De promessa a profunda desilusão?

O Público dedica hoje um artigo ao desgaste de Sarkozy um ano após a sua eleição. A derrota nas eleições municipais de Março e os índices de popularidade agora publicados parecem confirmar que “quando maior a expectativa, maior a desilusão”.

Os franceses parecem fazer um balanço nada positivo deste primeiro ano de mandato. Aquele que parecia disposto a ser uma nova referência para a direita europeia aparece agora altamente fragilizado. No entanto, importa não esquecer que ainda faltam 4 anos de mandato.

JS-Açores defende criminalização do acesso ao Ensino Superior?!?

O blogue dos deputados da JS na Assembleia Legislativa Regional dos Açores brinda-nos com um estranha afirmação. Depois de destacar a aprovação de uma política de apoio à frequência de estudos pós-secundários e superiores, afirma que esta é um garante da “não descriminalização no acesso ao Ensino Superior.” Terei percebido bem? Defendem a “não descriminalização”, ou seja, a criminalização?!?

Suponho que onde se lê “não descriminalização”, deveria ler-se “não discriminação”. E onde se lê “açores”, deveria ler-se “Açores”. E onde se lê “região autónoma dos açores”, deveria ler-se “Região Autónoma dos Açores”.

Sabemos que a blogosfera é um espaço tipicamente informal. É um espaço onde os textos não primam pela revisão, e é salutar que assim o seja. É ainda mais salutar que exista um blogue que informa sobre a actividade parlamentar da JS Açores. De qualquer modo, senhores deputados, tenham um pouco mais de atenção. Fica a nota construtiva e saudavelmente provocatória.

Por último, uma palavra positiva quanto à substância. Ainda bem que foram aprovados os diplomas em causa. É sem dúvida positivo que o Governo Açoriano reforce o apoio ao prosseguimento de estudos pós-secundários e superiores, à semelhança do que há muito é feito no caso madeirense.

Sábado, 10 de Maio de 2008

Legados da Extrema-Direita

A revista TV Mais foi hoje retirada das bancas pelo simples facto de ter publicado imagens da nova residência de Ricardo Araújo Pereira. Na sequência das ameaças recebidas por grupos de extrema-direita, o humorista mantém o máximo sigilo sobre a sua morada.

Se há algo que caracteriza este tipo de grupos de extrema-direita é a facilidade com que a violência é utilizada como forma de suposto combate político. Aliás, a violência é parte integrante da ideologia professada. O que poderia ser um meio rapidamente se transforma num fim em si mesmo.

A este propósito, relembro o debate em Agosto passado em que se discutiram as semelhanças entre a extrema-direita e a extrema-esquerda. Tudo isto porque um grupo denominado Verde Eufémia decidiu assassinar um hectare de milho...

Parada bem ao estilo Soviético

Pouco dias depois de Medvedev tomar posse, eis uma manifestação de força como há muito não se via. A parada do Victory Day proporcionou a todo o mundo um flashback dos tempos soviéticos.

As imagens são bem elucidativas (ver vídeo da BBC). A parada que ontem se realizou na Praça Vermelha não quis passar despercebida. Tanques, mísseis, caças e outros aviões de guerra a sobrevoar o Kremlin, esquadrões a marchar e a bater continência bem ao estilo soviético.

Nem valerá a pena dissertar muito sobre a nostalgia do poder dos velhos tempos sentida pela actual Rússia. Se os tempos de Putin foram de claro reforço dessa imagem de recuperação de poder, os tempos de Medvedev tentarão não inverter essa tendência. Para já conseguiram-no com uma manifestação de poderio militar que, nos dias de hoje, julgávamos apenas poder assistir algures na Coreia do Norte…

Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

A Catástrofe na Birmânia

De quando a quando, e de forma trágica, surgem estas calamidades que nos deixam abismados. A dimensão da catástrofe na Birmânia consegue até transformar o número de mortes nisso mesmo: um número. Um número simples e cru, impossível de imaginar.

Como se não bastasse o facto deste tipo de calamidades atingir quase cirurgicamente zonas do globo mais carenciadas, a Junta Militar birmanesa ainda faz questão de se assumir como uma triste cereja em cima do bolo. Nem existem palavras para qualificar as barreiras impostas à entrada de ajuda internacional.

Triste sina a do povo birmanês. Alguém disse que a presente catástrofe poderia suscitar um enfraquecimento da ditadura que se vive na Birmânia. No meio de toda a desgraça mostrada pelas poucas imagens que nos chegam, falar de política quase se torna inapropriado.

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Três contradições de Manuela Ferreira Leite

Na entrevista ontem dada à RTP, Manuela Ferreira Leite começou por apontar a credibilidade como a sua principal mais-valia. No entanto, com o decorrer do programa, cristalizaram-se três contradições de fundo.

A primeira diz respeito à questão do “enganar os portugueses” apontada a Sócrates. Por mais que a ex-ministra tente justificar, foi no seu mandato na pasta das finanças que se criou a moda da subida de 2% do IVA pouco depois das eleições.

A segunda contradição de fundo é relativa à questão do “colocar as contas públicas em ordem”. Como é sabido, a moda do apertar o cinto e de redução do défice foi uma das principais bandeiras do seu mandato. Com uma ligeira diferença: o actual Governo conseguiu a sua redução e Manuela Ferreira Leite ficou-se pela sua subida descontrolada. Explicações que atenuem tal facto são escusadas.

Uma terceira contradição a apontar é a face humana que Ferreira Leite tentou sublinhar na entrevista. É mais do natural que o faça. Mas a sua imagem de credibilidade é inversamente proporcional à sua face humana. Tentar dar-lhe um rosto humano equivale a pouco mais do que pintar um sorriso numa “dama de ferro”.

Nota: A entrevista ontem concedida a Judite Sousa pode ser (re)vista aqui.

Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Bob Geldof e os Criminosos que Governam Angola

O caldo entornou-se quando o irreverente Bob Geldof, músico activista e organizador do Live Aid e Live 8, considerou que “Angola é gerida por criminosos”. A audiência que assistia à conferência promovida pelo BES e pelo Expresso certamente não gelou por tal ser uma mentira, mas apenas por ser uma afirmação excessivamente directa.

Bob Geldof conseguiu, de forma simples e frontal, colocar o dedo na ferida. O que explica bem as reacções que se sucederam. O BES demarcou-se (como não podia deixar de ser), o Expresso não comentou e a Embaixada de Angola em Lisboa repudiou as afirmações. O Jornal de Angola também já disse de sua justiça. Mas Geldof deixou ainda a mensagem de que Portugal pode fazer muito mais do que tem feito. E tem razão.

Se calhar começava por deixarmos de olhar a corrupção em Angola como um dado adquirido, que o tempo acabará por remediar. Poderia começar também por uma abordagem diplomática com Angola que não se cansasse de colocar a tónica no respeito pelos direitos humanos. Se calhar começava também por as grandes empresas portuguesas que investem em Angola não se colocarem à parte do problema, refugiando-se descaradamente no argumento de que o simples investimento económico é um contributo para a democratização do país…
Nota: O video com as declarações de Bob Geldof pode ser visto aqui.

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

O (quase) Bloco de Direita

A coligação entre o PPM, o PND, o MPT e o PDA para as regionais açorianas de Outubro próximo era um fenómeno político interessante. Um projecto-piloto para a formação de um “Bloco de Direita”? O entendimento durou pouco, mas permitiu levantar a possibilidade dos pequenos partidos de direita seguirem o exemplo do que sucedeu há quase 10 anos com o Bloco de Esquerda.

Apesar de não serem muitas as informações, a coligação que acabou por não surgir nos Açores poderia ter sido um fenómeno a acompanhar de perto. A união de quatro pequenas forças políticas à direita poderia bem ter servido de tubo de ensaio para que algo semelhante se proporcionasse a nível nacional, tal como foi sublinhado no Câmara de Comuns.

Como é natural, é bom e salutar para a democracia que existam pequenos partidos, com ideologias e posições muito próprias. Mas é sabido que a expressividade eleitoral até hoje obtida pelo PPM, pelo PDA, pelo MPT e até pelo recente PND, dificilmente proporcionará alguma representação parlamentar a nível nacional num futuro próximo. Será assim tão descabida a possibilidade de formação de um "Bloco de Direita"?